14 de outubro de 2017

Não te esqueças de sorrir

O mundo dos sem-abrigo é um mundo em que a droga, o álcool e os problemas psiquiátricos são “reis e senhores”. Quem conhece o ambiente em que me movo às 4ªas feiras percebe o que eu quero dizer.

José, nome fictício, para o proteger. Quando me cruzei com ele na Gare, rapidamente percebi que não encaixava naquela equação. Sempre impecável, sempre educado, sempre discreto, sempre humilde.

Um dia aconteceu ficarmos à conversa e contou-me, finalmente, a sua história. Desavenças familiares, falhas enormes de comunicação e orgulhos em cima da mesa ditaram o afastamento.

Depois disso, o desemprego, outros países, outra vez a vida a virar-lhe as costas. Veio de assalto a falta de capacidade para se endireitar sozinho e, daí até à rua, foi um passo curto.

Ouvi-o, desejei-lhe força e coragem para continuar a enfrentar aquela realidade, e dei-lhe os parabéns por conseguir fazê-lo sempre sem cair nas tentações que a rua esconde a cada esquina. E fui para casa sem conseguir tirar aquilo da cabeça.

Foi naquele momento que me lembrei que, dias antes, vira um post do Vasco no Facebook, a pedir um copeiro para integrar a equipa no seu restaurante, situado numa zona nobre de Lisboa.

No dia seguinte liguei-lhe, arrisquei e perguntei-lhe “Queres dar uma oportunidade ao José? Algo me diz que ele não vai falhar.” Respondeu-me, sem hesitar, “Sim, quero”. Depois disto combinámos o dia para os apresentar e, mais uma vez, o José chegou mais cedo, impecável, educado, discreto e humilde. Já o Vasco chegou nervoso.

Lembro-me de duas coisas que ele lhe disse, logo para começar “O que tenho para ti é trabalho. Estás preparado para trabalhar?”. O José respondeu que sim. E terminou com um “Então amanhã vens ter comigo à porta do hotel, ao meio dia, e vamos ver como corre.”. “Chegarei às 11h”, respondeu o José, já de lágrimas nos olhos. Ele e eu, caraças.

Isto foi em julho. Daí para cá, eu e o Vasco íamos falando com muita regularidade e, sempre que lhe perguntava como estava a correr, ele descansava-me dizendo não podia ter encontrado melhor colaborador: dedicado, esforçado e profissional. “Não te preocupes, continuo 100% satisfeito, Marta!”.

Foi assim que o José saiu da rua e foi assim que a vida dele se começou a endireitar.

Naquele dia em que os apresentei, pedi ao José que me desse o seu número do telemóvel. Como não o sabia de cor, tirou um papel do bolso onde o tinha escrito e, para o conseguir ler, aproximou-o demasiado dos olhos. Percebi que algo de errado se passava e alertei o Vasco: “Assim que conseguirmos, temos que perceber se tem falta de vista.”

Há uns dias, o José deixou-se levar, finalmente, ao médico para fazer exames e sim, tinha falta de vista. A receita acusava, aliás, muita falta de vista. Próximo passo? Arranjar-lhe uns óculos para voltar a ver como deve de ser.

Mais uma vez recorri aos meus contactos e lembrei-me de outro amigo especial, também de há muitos anos, o Nuno, que já tinha respondido ao meu apelo uns dias antes para arranjar roupa ao José. Ele, a Deolinda e o Diogo, estes últimos amigos e colegas de trabalho que, tendo sabido da história, não quiseram ficar de fora e fizeram questão de ajudar a pôr nos eixos a vida de alguém que precisava e, acima de tudo, parecia querer.

Ontem o Nuno enviou-me uma mensagem a dizer “Os óculos estão prontos e pagos. São oferta do Grupo Olhos nos Olhos, loja de Telheiras”, empresa do Fernando Tomaz, sócio-gerente e Optometrista, que “é um dos melhores seres humanos que conheço”. Ele, o Cândido Ramos e o João Martins, também Optometristas e colaboradores do Grupo, que receberam o José de braços abertos no dia de escolher as armações. E acrescentou “Só têm um pedido em troca: que o José seja feliz com os óculos novos.”

Engoli em seco. Agradeci. Liguei ao Vasco, dei-lhe a novidade. “Vou pôr-te em alta voz, o José está aqui ao meu lado, dá-lhe tu a notícia”. E foi-me dado esse privilégio. Do outro lado, primeiro houve silêncio, depois um “obrigado” mais uma vez carregado de humildade. Contou-me o Vasco que, depois disto, o José se agarrou a ele a chorar, de felicidade.

Hoje o José foi buscar os óculos. Ligou-me logo a seguir, mais uma vez para agradecer, e para me dizer que o fim de semana ia ser passado a ver o que há anos não via e tinha vergonha de confessar. 
As cores das flores, o mar. Tudo o que o rodeia. E a ele próprio.

O José voltou a ver como merece. O José voltou a ver e, devagarinho, vai voltando a sorrir.

E eu deito-me todos os dias com a certeza de que a vida só vale a pena quando nos rodeamos de boas pessoas, e que a minha está cheiinha delas.

Ao Vasco, ao Nuno, ao Fernando, ao Cândido, ao João, à Deolinda e ao Diogo: obrigada por estarem atentos e obrigada por estarem por perto.

Ao José, deixo-lhe a mesma mensagem que lhe deixei quando falámos: que ele já não está sozinho.




3 de outubro de 2017

O Rei dos Bolos

Passou por mim de manhã, mais uma vez com o já habitual “há bola, há pão com chouriço, há merenda”. Sempre demasiado carregado, sempre demasiado vestido, sempre vestido de preto.

Disse-me adeus de perto do mar, que a areia ali está mais dura e custa menos andar em cima dela.

Conhece-me desde miúda. E sempre daquela praia.

Depois seguiu o seu caminho, porque tinha que conseguir despachar tudo o que levava. “O negócio anda mal, sabe?”.

O dia avançou, ainda o vi passar para cima e para baixo mais algumas vezes.

Quando me preparava para sair da praia oiço um “menina Martaaaaa?” perto de mim. Reconheci-lhe a voz, olhei para trás e vi-o a aproximar-se. Ri-me e pensei “pronto, lá vem o Sr. Zé dar-me bolas de Berlim e chupa-chupas para os miúdos”. E deu. Mas depois levou a mão à mala e tirou de lá o meu livro.


Sem esperar, respondi com um sorriso envergonhado. “Oh Sr. Zé, que querido…! Dê cá para eu lhe escrever uma dedicatória”.

“Pedi a uma cliente ali da praia ao lado que a conhece para me comprar…”, respondeu-me feliz.

Passou-mo para a mão e, quando me preparava para escrever, disse em voz alta, “Ora bem, Caro Sr. Zé…”. Nesta altura ele interrompeu-me com um “Não, ponha Caro Rei dos Bolos…”.

Soltei uma gargalhada e escrevi. Quando terminei li-lhe a dedicatória: “Caro Rei dos Bolos, espero que encontre sempre o caminho para Ser Feliz e que nunca se esqueça que essa é sempre uma escolha sua. Com beijinho da Marta.”

Olhei para cima, para ele, que lá estava. Como sempre demasiado carregado, como sempre demasiado vestido, como sempre de preto, mas desta vez, a chorar. Tentou disfarçar, agradeceu, guardou o livro, e seguiu caminho.

Não foram raras as vezes que, debaixo de um sol que torra, pensei na vida difícil daquele homem. Enquanto uns aproveitam o dia de praia e se divertem, o Sr. Zé, o Rei dos Bolos, faz quilómetros para lá e para cá, sempre com a mesma cantilena na boca “há bola, há pão com chouriço, há merenda”. E agora também há um livro naquela sacola, que ele mostra a quem, pelo meio de um troco de um bolo, lhe dá 2 dedos de conversa.

Aconteceu hoje. Só que, sem ele saber, desta vez quem o ouvia também me conhecia desde pequena. Pediu-lhe para lhe tirar uma fotografia e enviou-ma. Fez-me o dia. Que, antes disto, tinha sido focado apenas em trabalho e sem tempo para me lembrar que há mais do que contactos, textos para rever e estratégias para definir. Muito mais.

Ser Feliz é, Mesmo, uma Escolha.


2 de setembro de 2017

Por falar em discriminação

“Peço desculpa, mas só a podemos levar ao banho até às 11h30”, ordens da Polícia Marítima, acrescentou.

Encolheu os ombros, como quem me quer dizer que não concorda, mas pediu-me para perceber que não podia ir contra as regras. “Depois chateiam-me a cabeça, como já aconteceu, quando me viram dentro de água depois dessa hora…”

Naquela praia há 4 Nadadores-Salvadores. Almoçam entre as 11h30 e as 13h30, aos pares. E, durante essas 2 horas, os banhistas com mobilidade reduzida que dependem da ajuda deles para poderem ir para dentro de água, aguentam-se à bronca (e ao sol) e esperam. “Eles dizem que se estivermos focados em vocês, não damos atenção a mais ninguém.” Solução? Simples: deixar-nos à torra durante as horas de maior calor, enquanto todos os outros se movimentam como, quando e se quiserem. É justo.

As minhas entranhas – sensíveis à ignorância humana, como é sabido – deram 32 voltas cá dentro. Tentei não perder o tino e descambar numa belíssima peixeirada na tão bem frequentada praia de Vilamoura. E consegui, porque sabia que aqueles miúdos pouca ou nenhuma responsabilidade tinham.

Com jeito, lá consegui tomar o meu último banho entre as 11h30 e as 12h, e ainda com mais jeito, lá consegui "furar as regras" e que um tiralô que estava há 1 ano parado em frente à porta da enfermaria, sem nunca ter sido usado (!!!), me servisse de “espreguiçadeira” e me permitisse ficar sentada nele e à beira mar.


Até a história deste tiralô é curiosa. A praia tem um que é utilizado diariamente para levar até ao mar os banhistas com mobilidade reduzida que a frequentam. Está todo estragado, devido ao uso e, acima de tudo, à falta de manutenção. E depois tem outro, o tal que estava parado à porta da enfermaria, disseram-me que desde que foi entregue pela Secretaria de Estado da Inclusão à praia, em 2016, como prémio de Praia Mais Acessível. Quando perguntei a razão, disseram-me que aquele não era próprio para ir ao mar. Expliquei-lhes que estavam enganados, que era diferente do outro mas que também podia molhar-se. De nada serviu, mas lá consegui que me deixassem – pelo menos – utilizá-lo para poder estar à beira mar, onde sempre corria uma brisa mais fresca do que aquela que se fazia sentir lá em cima, nos chapéus que nos destinam, logo na entrada da praia. Que já agora são 3, seguidinhos. Ou seja, se vão 4 pessoas com necessidades especiais para a praia, 1 tem que se ir embora porque já não tem lugar… e as outras 3 ficam todas juntinhas. Gosto tanto disto.

Já agora, também estes chapéus estão mal posicionados. O requisito “de cumprimento obrigatório” para ser “Praia Acessível” é, e passo a citar o que vem no Programa, “que a mesma tenha uma rede de percursos pedonais acessíveis na praia, totalmente livre de obstáculos e de interrupções, que incluirá passadeiras no areal, sempre que este exista, e, nos restantes casos, um percurso pavimentado, firme e contínuo.(…) Esta rede de percursos acessíveis conduzirá necessariamente à zona de banhos de sol (chapéus de sol, toldos, barracas) e o mais próximo possível da água.” Meus senhores, à entrada da praia não é “o mais próximo do mar possível”. É exatamente o oposto. Pior que isto só se for no parque de estacionamento! 

Durante os meus dias de férias a sul, safou-me o facto de só ir à praia de manhã, reservando a tarde para piscina, e a simpatia dos Nadadores-Salvadores, que me ajudaram sempre que pedi. Agradeci-lhes os banhos seguidos, mas não consigo ficar satisfeita com as soluções que o Estado encontrou para tornar a minha ida à praia mais inclusiva.

De há uns anos para cá tem havido um esforço para dignificar a coisa, mas sem resultados claros, serve de pouco. E não, não esperem que eu diga “pelo menos já há alguma coisa feita”, como já ouvi de pessoas que, como eu, têm este tipo de necessidades, que se contentam com praias "quase acessíveis" e outras "quase-quase-e-o-resto-dá-se-um-jeitinho-haja-boa-vontade".

É que entre uma rampa mal feita ou ela nem existir, prefiro que não exista. Primeiro porque uma rampa com a inclinação errada torna-se perigosa para mim, depois porque quem fez uma rampa dessas não a fez a pensar em mim. Fê-la para calar bocas. Mas a minha não calará.


29 de junho de 2017

Para ti, Paula

Os dias que termino na Gare costumam ser uma espécie de injeção de energia que depois uso para aguentar os que se seguem, até voltar a ser 4ª feira, e regressar lá.

Mas ontem não foi assim. Cheguei cedo, encontrei a Mariana pelo caminho e fizemos juntas os últimos metros até ao ponto de encontro habitual.

Assim que me viu, o Chico, arrumador de carros que anda por ali desde que me lembro, veio ter comigo e disse-me “Então, Marta? Não me ligou para a ir ajudar…”. Ele sabe que o percurso por baixo da Gare, depois de sair do centro comercial, é demasiado inclinado, demasiado longo, e que me custa fazê-lo. No dia em que se apercebeu disso, deu-me o seu número de telefone e pediu-me que lhe ligasse antes de o iniciar. “Desço as escadas num instante e vou lá empurrar-lhe a cadeira, na boa, pá.” E sempre que lhe liguei foi. Mas ontem encontrei a Mariana, não liguei ao Chico e ele estranhou.

Quando chegámos, já lá estavam alguns dos nossos amigos de rua. Em fila, para receberem a refeição quente, o pão, a fruta, o bolo e o chá. E, quando é possível, a roupa.

Enquanto esperávamos que chegassem todos os voluntários, fiquei a conversar com os sem-abrigo que estavam mais próximos. E, nisto, “A Paula morreu...”, disse uma senhora que estava no início da fila.

De repente, fiquei só eu e aquela mulher. Como se todos os outros tivessem desaparecido. Nos minutos que se seguiram, tive a sensação de que a ouvia mas apenas ao longe.

 “Morreu? Mas morreu como!?”, perguntei eu, surpreendida.

 “Foi atropelada ali para cima, morreu na hora.”, respondeu.

Ainda a ouvi a dizer que a notícia estava na internet e que se via uma foto com uma ambulância ao lado de um corpo tapado com um lençol branco. Mas naquele momento, a minha cabeça focou-se apenas nas tantas vezes que eu e a Paula tínhamos ficado a conversar, antes ou depois da distribuição de refeições das 4ªs feiras.

Sabia pouco da história dela. Apenas que tinha perto de 45 anos e que se tinha juntado com o Francisco, um sem-abrigo que eu conhecia desde o meu 1º dia na Gare. Com eles sempre, a Funny, uma rafeira grande, de pêlo preto espetado, magrelas mas muito bem tratada. Parecia-me uma cadela feliz. E eu, claro, nunca lhe resistia.

O nosso amor pelos animais unia-nos mais do que outro tema qualquer, por isso era da Funny que falávamos. Contava-me como gostava dela, que era a sua maior companheira. Isto enquanto ela brincava com as garrafas de água, refastelada no pedal da minha cadeira.


Um dia a Paula apareceu com o lábio inchado e todo cozido. Tinha dificuldade em falar e disse-me apenas que tinha caído. Soube ontem que tinha sido por causa de uma bebedeira que tinha apanhado. Mais uma. A última, até àquele dia em que atravessou a estrada num sítio proibido e foi atropelada por um carro que não a viu. “Foi para os Santos, bebeu demais outra vez, passou pelo buraco da rede e decidiu atravessar ali a estrada.” alguém comentou. Já não bebia há meses, achava que estava a conseguir controlar o vício que a andava a matar aos poucos.

Voltei a concentrar-me na voz da colega de rua da Paula. “O Francisco ia com ela e disse-me que as suas últimas palavras foram para mim. Pediu para eu e o meu marido a perdoarmos.”. Não faço ideia do que poderia ter acontecido entre elas, mas perguntei “E perdoou?”. Respondeu-me que sim, e naquela altura senti um nó na garganta. Mas senti também alívio por perceber que o último pedido da Paula tinha sido atendido. 

O Francisco estava do outro lado da rua, com a Funny. Quando me viu aproximou-se, olhou-me nos olhos e disse-me “Morreu…e agora fiquei sozinho. Não tenho nada.”. Agarrou a Funny pela trela e afastou-se para o fim da fila.

Fiquei gelada, sem qualquer capacidade de reação e rezei para que não começasse a chorar.

A rua é muito cruel. As pessoas que vão ali ter connosco estão quase sempre magoadas, revoltadas e desiludidas. Com a vida e, tantas vezes, com elas próprias. Porque falharam e não conseguiram dar a volta. Depois disso, vem a vergonha, o não suportar encarar que estão naquela realidade. E eis que o álcool e a droga se instalam, como forma de esquecer tudo, pelo menos por momentos.

Uns resistem a tudo isto e conseguem regressar à sociedade. Outros nem tentam. Perderam a esperança e deixam-se estar por ali. Na rua, ao frio e ao calor. À espera. E nós, por muito pouco que levemos, nunca lhes faltamos.

Como disse aquela mulher que estava na fila: “Era boa miúda, foi descansar...”. 

(Para ti, Paula)

23 de junho de 2017

Isto é sobre viver

(texto originalmente escrito para o portal O Tuga com o título Ser Feliz é Uma Escolha)
Já contei a minha história muitas vezes e em fóruns diversos. Já tive duas horas para o fazer, já tive menos de uma, já tive dezassete minutos, o recorde foi conta-la em dez. E, todas as vezes que a contei, nunca o consegui fazer sem ser pelo seu lado positivo.
Fiquei de cadeira de rodas com 15 anos. Era uma adolescente feliz, cheia de planos. Tinha tido uma infância fantástica, marcada pela liberdade de quem vivia no centro da cidade, mas que desde muito cedo pôde fugir dela ao fim de semana, para uma casa perto da praia.
Da outra margem do Tejo ficava a Caparica. Era lá que tínhamos a maioria dos nossos amigos. Era lá que saltávamos os muros dos vizinhos para lhes roubar a fruta dos quintais. Era lá que gastávamos os 1000 escudos da semanada em gelados ou campeonatos de matraquilhos e snooker. Era lá que os meus pais nos deixavam passar o dia a andar de bicicleta pelas estradas de terra batida que se enchiam de poças lamacentas quando chovia e era também era lá que nos deixavam ficar na rua até tarde.
Já a semana era passada em Lisboa, entre o Bairro de Alvalade e a Avenida de Roma. Um dia, sozinha em casa, enquanto tomava um duche para mais um dia de escola, senti-me zonza, sentei-me, desmaiei ainda lá dentro e entrei em coma. Quando acordei, 5 horas depois, já no hospital, disse “estou bem mas não sinto as pernas”. Estava paraplégica. Tinha 15 anos e o meu cérebro tinha perdido a capacidade de comandar a parte inferior do meu corpo. Tinha deixado de poder andar.
Marta Guimarães Canário
 Os anos que se seguiram foram de tratamentos, dentro e fora de Portugal. Mas também de regresso à normalidade, numa vida que, a partir daquele momento, passou a ser vivida sentada numa cadeira.
Quando, depois de 4 anos a fazer de tudo para voltar a andar decidi largar os tratamentos (que, já agora, não traziam resultados), era uma jovem de quase 20 anos feliz, que continuava cheia de planos e que se sentia capaz de conquistar o mundo. A cadeira estava lá, mas o único papel que eu deixava que tivesse na minha vida era o secundário: apenas uma forma de me deslocar. E isso era algo que eu devia a mim, claro, mas, acima de tudo, a todos os que me rodearam de carinho e de atenção durante aqueles anos, onde a família teve lugar de destaque. E a vida, essa, seguiu em frente.
Tudo decorria dentro da normalidade, até que, aos 29 anos, depois de sair de um problema simples de vesícula, mas que me tinha feito perder muito peso, fiz uma escara na nádega que infetou e se complicou. As escaras são feridas comuns em pessoas em que a mobilidade está condicionada. E, normalmente, são feridas profundas que demoram algum tempo até fecharem. Já tinha tido várias, tinha conseguido curá-las sempre, mas aquela descontrolou-se e infetou. Fui tratando dela, como já tinha feito com as outras, mas a verdade é que a deixei avançar demais e, quando dei por mim, o meu corpo debatia-se contra uma infeção generalizada – conhecida por septicémia – e já estava em risco de vida.
Voltei ao hospital, mas desta vez para uma experiência mais dolorosa: dois meses de internamento, seguido de outro, e mais um, e mais um. Passei por altos pouco altos, baixos muito baixos, dias em que achei que tinha perdido a esperança de me safar, mas outros em que me agarrei a tudo o que me restava e a todos os que me rodeavam para sobreviver. Quando olhei para trás, tinha passado 6 meses internada e mais de 2 anos entre médicos disto ou daquilo, até me voltar a sentir bem.
Estive presa por um fio mas, mais uma vez, ganhei.
Foi durante este período que percebi que também eu tinha um limite, e que, para não me deparar de novo com ele, tinha que ouvir mais o meu corpo. Prestar-lhe mais atenção.
Desde essa altura, declarei guerra às escaras. Passaram-se 12 anos, e nunca mais tive nenhuma.
O livro “Ser Feliz É Uma Escolha”, que escrevi há 1 ano, conta estas histórias, mas também conta muitas outras. Porque estas duas, por si só, não me definem. A mulher em que me tornei foi influenciada por elas, é certo, mas marcaram-me igualmente os fins de semana na Caparica, as férias grandes passadas entre Magoito e Tomar, os primeiros namorados, as saídas à noite. E, ainda, o nascimento da minha sobrinha, o amor pelos meus cães, o meu trabalho, os meus sonhos, as minhas causas e até os meus medos. Está tudo naquelas páginas.
O “Ser Feliz É Uma Escolha” é a minha vida passada em revista. São 40 anos contados na 1ª pessoa, sem filtros e apenas com um objetivo: mostrar que, apesar dos solavancos, a vida vale cada minuto.

28 de maio de 2017

Fechar os olhos para não ver

Voluntariado. A minha primeira experiência já ia longe, em 1999, altura em que fui desafiada pela minha querida Conceição Zagalo, que pegou em mim e me levou até Palmeira, no norte de Portugal.

Missão: construir habitações para os sem-abrigo da zona. A ideia preocupou-me, confesso. Sabia que o ambiente de obras não era o ideal para a minha cadeira de rodas circular. Mas alguma coisa me fez aceitar o convite.

Entre o dizer que sim e o ir, vivi semanas de desconforto e dei por mim, várias vezes, a perguntar-me “oh maluquinha, mas que raio te deu para aceitares?”

Seriam 3 dias passados longe de quem estava sempre comigo, com um grupo que mal me conhecia. E isto implicava dormir sozinha num quarto de hotel e depositar nas mãos destas pessoas parte da minha intimidade. “Será que te desenrasca sozinha num quarto?”, “E se te dá uma dor de barriga?”, “E chichi, Marta Canário?”. O meu coração batia mais rápido sempre que pensava nisto, por isso evitava fazê-lo.

O dia chegou e a minha irmã levou-me até ao ponto de encontro. Passei a ponte com vontade de chorar e de voltar para trás. Estive mesmo perto, mas não o fiz. À hora, estava à porta da empresa, como todos os outros voluntários. “Seja o que Deus quiser”, pensei.

E a verdade é que fui muito feliz com eles durante os 3 dias em que ajudei a construir aquelas casas, lado a lado com quem nelas ia viver, e em que o meu papel, dada a já conhecida força dos meus braços, foi furar paredes com o berbequim. Pessoas que, sem sequer perceberem, marcaram a minha vida.

Passados 15 anos, decidi ser eu a desafiar-me. O Vasco Noronha, que tinha conhecido em ambiente profissional enquanto assessor de imprensa do ministro da Finanças da altura, colaborava com o Centro de Apoio ao Sem-abrigo (CASA) há alguns anos. Numa das suas idas, juntei-me a ele e ao grupo que, às quartas-feiras à noite, distribuía refeições quentes na Gare do Oriente, a quem dormia no acesso à estação.

Tinha prometido à minha mãe que aquilo seria uma experiência e que só voltaria se sentisse que o meu coração chegava a casa intacto. Não chegou. Chegou dorido por ter visto de perto a tristeza de quem não tem um teto para viver. E ainda mais dorido por ter visto de perto a indiferença de quem passa por eles sem sequer olhar. “É como se fechassem os olhos para não os ver. E assim custa-lhes menos”, pensei. Mas resisti e voltei.

27 de maio de 2017. Ontem fez 3 anos, desde que me deixei embarcar nesta aventura. Pelo caminho passei pelo desgosto de perder o Vasco, que nos morreu de forma inesperada há ano e meio, com uma estúpida falha naquele que era um dos corações mais generosos que conheci até hoje. Na altura pensei em desistir, mas rapidamente senti que, para além de “desistir” ser uma palavra difícil de engolir para mim, também por ele não o poderia fazer. Senti que manter-me ali, seria também uma forma de dar continuidade ao que o Vasquinho, como gostava de lhe chamar, defendia e me ensinou.

3 anos depois, as minhas quartas-feiras terminam melhor se conseguir organizar a agenda “ir à Gare”. Vou quase sempre estoirada e de cabeça cheia do dia de trabalho, mas aqueles momentos funcionam como uma espécie de injeção que me repõe a energia para os dias que se seguem.

O coração, esse, já se habituou mais ao que ali vê, e aprendeu a viver sabendo que deixa lá tudo o que pode para que consiga voltar todas as semanas.










23 de maio de 2017

Urgente: respeito procura-se

Estava um dia de calor intenso. Uma mosca insistia em rasar as nossas cabeças e colar-se às nossas peles. Não nos largava. Estávamos as duas sentadas num dos bancos de cimento que havia no pátio lá do liceu.

Em jeito de brincadeira, saiu-me “a mosca não nos larga porque tu és da cor do cocó”, e desatei-me a rir, achando que tinha dito a melhor piada do mundo, sem pensar que ela poderia ficar magoada com aquilo.

A Raquel olhou para mim e, sem sequer mudar de expressão, levantou a mão e espetou-me uma bofetada digna do nome. Nunca tinha levado uma bofetada. No segundo seguinte estava a pedir-lhe desculpa. Não por medo de levar mais, mas por vergonha daquilo que tinha acabado de dizer.

A Raquel tinha chegado de Angola há alguns anos e vivia num prédio em ruínas, ali para os lados do Campo Grande. Eramos colegas de turma. Não tínhamos mais do que 10 ou 11 anos.

Ainda hoje sinto o coração a ficar mais pequeno, quando penso nisto.


Esta história marcou-me profundamente. Como me marca cada notícia que leio nos jornais ou vejo na televisão sobre este assunto que, quase de um momento para o outro, passou a fazer parte do alinhamento de todos os noticiários.

Naquele tempo, não havia nome para isto. Era apenas a profunda estupidez e maldade de uma pré adolescente parva a funcionar, neste caso, minha. Hoje poderia ser considerado uma espécie de bullying, e muito bem.

Li recentemente que, segundo alguns investigadores, uma em cada cinco crianças em idade escolar está ou esteve envolvida em algum caso de bullying. Uma em cada cinco crianças agride ou é agredida direta ou indiretamente. Contas feitas pelos mesmos investigadores, estamos a falar de quase 250 mil miúdos que maltratam ou são maltratados. 250 mil futuros adultos, entre médicos, engenheiros, eletricistas, mecânicos, veterinários, jornalistas, ou profissionais de quaisquer outras áreas, com potenciais problemas de segurança e autoestima. 250 mil seres humanos com menos capacidade para lutarem por aquilo em que acreditam. Mais grave ainda, por aquilo que os faz felizes. E, se assim for, o que é que lhes restará?

É preciso olhar para o problema do bullying como um dos maiores flagelos da idade jovem. Se olharmos à nossa volta, não há quem não sofra, quem não abuse, ou quem não conheça quem veja e cale. É urgente explicar a estes jovens que o respeito pelo outro é a base de uma sociedade saudável. E que sem esse respeito pelo outro, nunca conseguirão ser, também eles, respeitados. 

Quanto à Raquel, apesar daquele espisódio infeliz, mantivemos a nossa amizade. Mais tarde, com o passar do tempo, perdemo-nos uma da outra. Se um dia a reencontrar volto a pedir-lhe desculpa.